‘Roque Santeiro’ está de volta à Globo em um momento bastante interessante. A partir de 5 de outubro, o clássico de Dias Gomes e Aguinaldo Silva ocupa o lugar de ‘Além do Tempo’ na faixa Edição Especial, e a reexibição vai ser por um motivo especial: os 40 anos depois da transmissão orginal, no caso, em 1985.
'Rowue Santeiro1' chega como a segunda novela das oito (ou nove) na Edição Especial, marcada por clássicos dos horários das seis e das sete. 'Terra Nostra' ocupou esse espaço até o início deste ano.
E talvez a melhor maneira de assistir à novela agora seja justamente esquecer, por alguns minutos, a ideia de que estamos diante de uma obra 'velha'.
‘Roque Santeiro’ pode ser antiga na data de produção, mas sua pergunta central continua extremamente contemporânea: o que acontece quando uma sociedade inteira passa a depender de uma mentira?
'Roque Santeiro' (José Wilker) é dado como morto depois de supostamente defender Asa Branca de um bandido. A partir daí, transforma-se em mártir, santo popular e símbolo de milagres. O problema é que Roque está vivo e retorna à cidade 17 anos depois, para o desespero dos moradores da pequena cidade.
A premissa parece até feita para a era das redes sociais. Uma mentira repetida durante anos deixa de ser apenas uma mentira e passa a virar verdade. A cidade constrói uma identidade em torno daquele mito, e o mais interessante é que muitos lucram com sua suposta morte.
Hoje, quando uma informação falsa pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos, a história ganha uma camada especialmente interessante. ‘
Asa Branca não vive apenas da devoção. A imagem de Roque movimenta o comércio, atrai romeiros e fortalece interesses políticos, religiosos e econômicos.
Zé das Medalhas (Armando Bogus) lucra com os objetos ligados ao santo, enquanto autoridades locais também dependem da permanência da lenda.E na vida real não é assim? Em qualquer religião, existe a venda de produtos ligados ao que se prega.
É aí que a novela deixa de ser simplesmente uma comédia sobre uma cidade do interior. Ela vira uma sátira sobre quem ganha dinheiro quando uma crença se transforma em negócio.
E essa talvez seja uma das maiores contribuições de uma reprise como essa: permitir que o público mais jovem perceba como uma novela pode discutir assuntos sérios sem precisar abandonar o humor, o romance e o entretenimento.
Se existe um motivo para assistir à novela mesmo sem interesse pela discussão social, ele está nos personagens.
Sinhozinho Malta, interpretado por Lima Duarte, e Viúva Porcina, vivida por Regina Duarte, são figuras exageradas, contraditórias e cheias de personalidade. Ele, um homem debochado, divertido, machista e, ao mesmo tempo, apaixonado; ela, carismática, ciumenta, engraçada e vaidosa.
‘Roque Santeiro’ lembra que um bom personagem não precisa ser explicado o tempo inteiro: ele pode ser reconhecido pela maneira como fala, se comporta e ocupa uma cena.
Uma coisa que o folhetim de 1985 tem de valor são os bordões implacáveis que figuram na mente do telespectador até hoje. O 'Tô certo ou tô errado', de Sinhozinho Malta, é um clássico.
‘Roque Santeiro’ reuniu alguns dos maiores nomes da dramaturgia brasileira em personagens que se tornaram referências, muitos deles, já faleceram.
Ary Fontoura, Paulo Gracindo, Eloísa Mafalda, Cássia Kis, Fábio Jr., Yoná Magalhães e Lucinha Lins, entre outros.
Talvez esse seja o principal motivo para a reprise acontecer justamente agora.
A novela apresenta Asa Branca como uma espécie de microcosmo do país: uma cidade em que política, religião, dinheiro, poder, desejo, reputação e crença se misturam. A própria Memória Globo define a trama como uma sátira à exploração política e comercial da fé popular.
E existe ainda uma camada histórica impossível de ignorar. A novela deveria ter ido ao ar em 1975, mas sua primeira versão foi proibida pela censura quando já havia cerca de 30 capítulos gravados. Dez anos depois, em 1985, finalmente chegou à televisão e tornou-se um símbolo da abertura política e da liberdade de expressão.
Por isso, rever ‘Roque Santeiro’ hoje também é uma forma de olhar para o Brasil de quatro décadas atrás e perceber quais comportamentos mudaram.